segunda-feira, 29 de junho de 2009

A Misteriosa Chama da Rainha Loana

Para mim, a literatura é como elemental que se encontra entre nós, fluindo, usando nossas mentes para construir a excelência, para forçar o ser humano a garimpar, a extrair a beleza de sua essência mais eterna, mais universal.
Há autores, que são fenomenais não somente em contar histórias, mas através delas transparecer certos contornos da condição humana capazes de desembaçar um pouco nossa imagem no espelho. Calvino, para mim é um desses. Outro, Umberto Eco, me conquistou com o livro A misteriosa chama da rainha Loana. Ele construiu uma história do jeito que eu sempre quis escrever: usando as próprias memórias de forma ecumênica, abrindo um portal para que todos possam olhar através dos olhos dele como se fossem seus próprios.
A cada figura, a cada imagem que Yambo trazia de volta da névoa da memória, eu reconhecia em mim um ser que lembra e que esquece, que sujeito ao tempo, construiu sua própria existência sobre o passado, esses alicerces de nuvem, que podem ser esfacelados assim que a lembrança se recusar a nos servir.
A névoa foi quem mudou o destino de Yambo: transformou o menino em homem, verde ainda, mas a guerra não poupa as crianças. O princípe que vivia encastelado, protegido, que descobria o mundo vagarosamente pelos livros, foi acordado e chacoalhado para o mundo. Para fugir ao mundo, torna de novo aos livros, os companheiros indefectíveis, que também trazem novos recortes do mundo, uns belos, outros nem tanto. Yambo como eu, ama os livros, suas janelas. A cada janela, uma paisagem.
A misteriosa chama da Rainha Loana também é um ode as pequenas chamas que criamos e guardamos dentro de nós, que nos tornam únicos. Os amores, as apreciações, as indignações.
Yambo me mostrou que não preciso perder as lembranças para querer recuperá-las e nem amá-las mais do que a capacidade presente de ação.